“O passado é uma dívida; o futuro é uma especulação; mas quem cobra é o presente”.
Daniel Piza
Passei os últimos dias do ano passado no Rio de Janeiro. Não fui para o Reveillon. Não me importavam os artifícios dos fogos, cantores regiamente pagos, milhares de pessoas amontoadas e políticos fazendo média em Copacabana. Tampouco a árvore de Natal de 100 metros que parece apequenada na suja, mas ainda bela Lagoa Rodrigo de Freitas. Fui rever a minha segunda cidade, a que conheço desde meninote, antes do criativo trabalho de Burle Marx no paisagismo do Aterro do Flamengo e do alargamento da Avenida Atlântica. Fui dar um giro, de táxi, por favelas ditas pacificadas. Ruelas estreitas, camelôs por todos os lados, carros sobre os passeios, escadarias íngremes mesmo e gente. Muita gente. Cidadãos braquicéfalos mostram a nordestinidade de grande parte de seus pacatos ocupantes. Não creio que o Rio esteja em paz, pois faz muito pouco tempo a ação e há favelas ou comunidades, como dizem agora, que não têm as UPP -unidades de polícia pacificadora. Uma cidade pacificada não possui os índices que o Rio ainda apresenta de criminalidade e tampouco carece de milhares de seguranças particulares em todos os locais de indústria, serviços, comércio e prédios residenciais. É um trabalho em progresso, sim. Tem chão.
Fui ver o Rio da feira-livre da Rua Domingos Ferreira, onde morava o Elano de Paula que hoje vê melhor uma parte da cidade de sua cobertura ali por perto. Por falar em Elano, seu irmão querido, Chico Anysio, está grave e nada do que publicam na imprensa reflete a densidade do caso que compromete a vida do mais destacado e completo ator brasileiro. Chico não é só comediante, como muitos pensam. Escreve, dirige, pinta, faz cinema, tem livros publicados e possui a sensibilidade do beija-flor e a argúcia de lépido coelho.
Fui ver o Rio para saber que o escritório do Oscar Niemayer estava fechado nesta época de friagem e chuva acima do normal. Estive em restaurantes do povo, de gourmet e madames. Visitei antiquários e armarinhos. Depois, tomei a Avenida Brasil, passei por Campo Grande para me deliciar, a seguir, com o atlântico, oceano, e a atlântica mata. Fui indo, indo, deixando a restinga da Marambaia para traz até chegar às cercanias do Rio Frade que se transmuda em mar bem depois da usina atômica ativa e dos estaleiros renascidos.
Fui atestar que há muito a ser feito nas ainda estreitas estradas federais e estaduais com acidentes provocados por imperícia, negligência e grossa imprudência. Vi pouca polícia rodoviária, a não ser quando vítimas havia. No retorno, comendo rosquinha, fui me molhar na chuva dos dias um e dois deste janeiro que bendizia a minha gripe ainda não debelada. Fui e voltei pelo Antônio Carlos Brasileiro Jobim, o campo de pouso, que merecia acústica melhor nas suas gares ultrapassadas em sustentabilidade, arquitetura, luminotécnica e tecnologia. Como dizia o próprio Tom, o Brasil é…, mas gosto dele. Eu também.
Para variar, houve tamanho atraso do A-320 que se comprazia em aglomerar retardatários de conexões internacionais, por escassez de outras aeronaves. Cheguei tarde da noite, cidade vazia, não havia gente nas ruas, só as máquinas de multar davam plantão. Desci em casa, gratificando o motorista esclarecido que falava português de gente que leu no tempo certo. Esqueci no banco dianteiro do seu carro branco um guarda-chuva antigo, mas talvez ele não lembre que tenha sido eu quem o abandonou, pois a tempestade não chegara.
(Reverencio o jornalista, escritor e intelectual Daniel Piza, morto aos 41 anos, vítima de AVC. Perde o Brasil.)
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/01/2012.
