E agora que janeiro está próximo do fim, ainda lembra do que prometeu e pediu na virada do ano? Recorda que deu um balanço nos problemas, relacionamentos, visual, peso, imagem pública e idade? Como diria o Ponte Preta, tudo era óbvio e ululante. Tem aquela história de você ser uma pessoa única (se não o fora, um trem a teria dividido?), de seus planos pessoais não serem iguais aos de ninguém e coisa e tal. Daí, entre o calor e os respingos de chuva, fala-se muito em reinventar a vida, não deixá-la morna, modorrenta e igual à de anos passados. Até eu devo ter escrito isso por aqui. Desculpem, na hora com certeza estava pensando assim.
Como este espaço é limitado, menos de 400 palavras (pode conferir), e não se propõe a aconselhamento, mas a articular ideias, breves que sejam, imagine-se em um “ashram”, um lugar aquietado, simples, em qualquer parte da Índia onde vive um Iogue de meia idade, uma espécie de guru. Lá, nos ashrams, eles têm vida contemplativa, extrema languidez de movimentos e falam inglês lento. E para esses lugares estão indo milhares de ocidentais à procura de paz. Vão ao exterior descobrir o seu interior. Assim, sem viajar, creia-se, por exemplo, em um ashram seu, exclusivo, que pode ser um quarto silencioso ou a sombra de uma mangueira frondosa. Dê uma de guru de si próprio, desempregue o Paulo Coelho. E, ao mesmo tempo, seja um aprendiz. Difícil? E o que é fácil? Como se fora um espelhamento veja-se refletido na sua imaginação, sem precisar abrir os olhos. Feche os olhos para ver. Experimente. Isso é conversa de domingo, dia da preguiça, exceto para os muçulmanos e judeus. Vá lá, cara. Tente. Não custa nada, nem precisa de plano de saúde ou fila do SUS. Basta parar e pensar em você mesmo. Um mergulho na alma. Se você não acredita que tem alma, dê uma olhada na consciência. Dá no mesmo. Vá devagar, a Índia é longe embora você não tenha saído de seu lugar. Tente o que chamam por aí de sincronização, uma espécie de embreagem que não permite solavancos na sua aquietação, mesmo que momentânea. E não esqueça de ter compaixão por você e pelos outros.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/01/2008
