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ARTIGO OU CRÔNICA? – Jornal O Estado

Muito se discute sobre a diferença entre artigo e crônica. Poderia falar, sem pretensões, que o artigo é mais sisudo, não comporta digressões e tem o objetivo de expressar a opinião do seu autor, seja jornalista ou não. Ou ter uma destinação científica ou acadêmica quando escrito por cientistas ou acadêmicos e veiculado em periódicos de universidades ou academias. A crônica é algo mais sutil. Mesmo quando escrita em jornal. É bom lembrar que Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Moreira Campos e Rachel de Queiroz, para ficar nos que não estão mais conosco, escreveram em jornais e sabiam da efemeridade e do difícil que é escrever para um público que deseja, de princípio, apenas saber notícias do dia. A crônica, como se vê, é lida de quebra, não é o principal produto das páginas impressas de um jornal. Como esta que estou escrevendo que está em um suplemento social, repleto de boas fotos, do jornal O Estado.
Li agora, neste janeiro de 2012, o jornal – ou seria um encarte? – “Pernambuco”, suplemento da revista “Continente” que mostra uma bela entrevista feita por Schneider Carpeggianni com o romancista e cronista mineiro Ivan Ângelo. A entrevista é sobre crônica, mas se indaga, de principio, qual a razão dele, autor premiado e festejado ter deixado, de lado, os romances. Ivan, penso eu, acredita que os romances de hoje, especialmente os best sellers, são feitos sem o grau de exigência necessário. De minha parte, concordo. Dou um exemplo: ganhei de presente um desses romances que passou meses como um dos mais vendidos no Brasil. Tentei ler o dito cujo. Não consegui. Voltei a encarar e acabei desistindo. Pode ser preconceito meu ou sei lá o que, mas “A Cabana” não fez jus às recomendações dadas pelo livreiro que o vendeu a quem me presenteou, com boas intenções.
Voltemos, então, à crônica. Ivan diz como produz uma crônica: “Eu trabalho a crônica com bastante abertura. Não é o assunto ou a quantidade de realidade que ponho nela que a torna uma crônica.” E continua: “Crônica não é um formato, como o soneto, um dos formatos do poema. Algumas das minhas crônicas, ou algumas crônicas, de um modo geral, são dissertações, outras são poema em prosa, outras são pequenos contos, ficções, outras são evocações, memórias, reflexões, recortes do cotidiano”.
E explica como seleciona crônicas escritas em jornal que, depois, resolve enfeixar em livro. Diz ele: “meu editor e eu procuramos montar a seleção de crônicas que compõem o livro ‘Certos Homens’ usando o critério da proximidade de assunto que um texto poderia ter com outro.”
Ao final, Ivan Angelo recomenda duas crônicas. Anúncio de João Alves, de Carlos Drummond de Andrade, e Partilha, de Rubem Braga. Valem a pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/01/2012

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O RICO E A CHINA – Diário do Nordeste

Um amigo telefona: o que achou da reportagem sobre o brasileiro, o oitavo homem mais rico do mundo? Nessa reportagem é citada uma frase atribuída a Deng Xiaoping, poderoso secretário geral do Partido Comunista Chinês, nascido no dia 22 de agosto de 1904, que saiu da China aos 15 anos com uma bolsa de estudos para viver na França, onde até foi metalúrgico e auxiliar de cozinha e instruiu-se, em seguida, em Moscou. A frase seria “Enriquecer é glorioso”. Ao que tudo indica, a frase correta é: “Socialismo não é pobreza. Ser rico é glorioso”. Deng morreu em 1997. Deixou plantada a semente do que definiu como “Socialismo de Mercado” e falava claro que a China seria diferente quando todos os estudantes chineses espalhados pelo mundo voltassem com os seus conhecimentos. Quando Richard Nixon era governante dos Estados Unidos (1969-1974) e foi o primeiro presidente americano a visitar a China – à época em que Mao Tse Tung insistia com a Revolução Cultural – surgiu o embrião da política do “ping-pong”. Além de outros objetivos de reaproximação, consistia em um amplo intercâmbio de jovens estudantes e professores americanos e chineses. Assim, o que acelerou a macro engrenagem da nova China, pós Mao, foi a apropriação do conhecimento científico e tecnológico que despontava nos anos 60 e nunca mais parou. É claro que a China absorveu, com sabedoria, tudo o que desvendou de bom no Ocidente. Por sua vez, empresas ocidentais acordaram para o potencial do mercado sino e lá se instalaram. Quanto à resposta sobre a pergunta inicial, eu poderia redarguir com outra: “O que é ser rico?”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2012

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COMO VAI A CULTURA NO BRASIL – Jornal O Estado

Você lê quantos livros por ano? Você vai a teatro, shows e cinemas? Qual foi a última vez que entrou em uma biblioteca, fez um cadastro e pediu um livro para ler? Você participa de algum grupo que discuta a realidade, filosofia, história, antropologia, música, religião, meio-ambiente, saúde, cultura etc.? Você se sente feliz ao receber um livro de presente?Você tem luz de cabeceira e a usa para ler? Ou utiliza uma cadeira confortável para ler o que lhe apetece? Você tem alguma familiaridade com o assunto cultura brasileira ou acha que isso é perda de tempo? Que tal ler um pouco sobre a cultura? É instigante, veja. Conto com alguns minutos seus. Vamos lá.
Estamos em princípios de 2012 e leio uma bela análise (Cultura sem expressão) de Flávia Tavares, para o suplemento “Eu&Fim de Semana”, do jornal Valor. Nele, em que me lastreio, Flávia faz uma análise concreta, correta e isenta da política cultural brasileira e destaca que a Ministra da Cultura Ana de Hollanda sempre é notada por sua timidez e forma de ser. Ana é filha de Sérgio, um dos ícones do início do Partido dos Trabalhadores que tinha na cultura, nas fábricas e na universidade o seu tripé de sustentação. Ana é irmã do cantor, compositor e escritor Chico Buarque e sempre esteve ao lado do partido nascido em São Paulo. Entretanto, Ana é mais que isso. Ela é atriz, cantora e compositora, mas não tem a malemolência e a baianidade de Gilberto Gil e Juca Ferreira, os dois ministros que a antecederam no Minc.
Já exerceu função pública, na direção do Centro de Música da Funarte, mas nada com o relevo e as cobranças devidas e indevidas ao MinC que, com pouca verba e contas a pagar, mexe com escritores, cineastas, artistas,mídia digital, compositores, músicos e o que mais se considerar cultura, no sentido amplo. A fogueira das vaidades começou cedo. Fato natural nesse mundo que vive dos meios de comunicação social, intrigas, de projetos com recursos da Lei Rouanet, de empresas estatais, grandes grupos e assemelhados. Emir Sader, sociólogo, havia sido lembrado e convidado para dirigir a Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, mas abriu a boca e falou o que não devia de sua futura superior hierárquica. Resultado: foi desconvidado.
Começava, a partir daí, uma guerra explícita contra Ana de Hollanda, inclusive com alusões à sua proximidade com integrantes do ECAD-Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos. Ana, no seu jeito simples de atuar, vai em frente e já tem um ano completo de ministério. O que se tem de concreto hoje na área é um Plano Nacional de Cultura com prioridades até o já próximo ano 2020. Afora isso, Ana esteve com Dilma apenas duas vezes e não gosta de ser entrevistada. Há rumores de sua saída. Há ciúmes e inveja. Dizem que a senadora Marta Suplicy poderia ser a sua sucessora, se Ana não for mantida por Dilma. Como dizia Boccaccio: “Apenas a miséria é sem inveja”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/02/2012

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REVER LIMITES – Diário do Nordeste

O Brasil vive uma euforia. Classes mudam de patamar. Famílias progridem. É tempo de rever ou estabelecer limites na família. A ausência de definição de limites provoca danos em todas as fases da vida de seus integrantes. A criança tem que conviver com um mínimo de regras definidas com carinho, mas firmeza. Ouve-se muito: tudo o que não tive vou dar a meus filhos. Não é bem assim, filhos devem ter o necessário e o possível, mas em termos. O importante, antes das “coisas” e facilidades que se dá, é que o casal tenha um objetivo comum na sua formação e inserção no mundo. As crianças testam os pais com choro, comportamento e outros. Definir regras de horários para estudo, lazer, higiene e convivência é básico. Os pais têm que deixar claro o que podem dar, o que não devem e o que é negociável. Um bom “não” significa para a criança limite de seu espaço pessoal, sua forma de demonstrar emoções, enfrentar o medo e saber usar a sua liberdade física, mental e verbal. Isso dará a ela a certeza de que a vida existe com limites. Em casa e na rua. Entretanto, não havendo consenso entre os pais, a criança começa a fazer jogos. Surge a mãe boazinha e o pai durão. Ou vice-versa. A criança sabe quando os pais hesitam e discutem. Aí forçam a barra. Agir em acordo, manter o combinado, o que foi dito, é a solução. É preciso firmeza desde cedo. Dói, talvez, Depois, será difícil, pois a facilidade em obter concessões com choro ou finca pé da criança balizará a relação. Presentes em excesso, facilidades e o não cumprimento do devido na educação e modos poderão dar o tom do futuro. Educar é definir limites e o que se espera de conduta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/02/2012

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FILÓSOFOS E CONCURSEIROS – Jornal O Estado

Com a capa em tons verdes e azuis o Prof. Oscar D’Alva e Souza Filho apresentou, como editor e coordenador, no ano passado, a versão terceira dos “Cadernos de Filosofia do Direito”, pelos alunos da disciplina Filosofia do Direito, da Universidade de Fortaleza. O caderno, como fica claro na denominação, reúne ensaios de jovens prestes a concluir o curso de direito. São 28 jovens universitários em rigorosa ordem alfabética aventurando-se a analisar Sócrates, Santo Tomás de Aquino, os valores como fundamentos, a utopia platônica, Fédon, a capacitação dos magistrados, Epicuro, Hans Kelsen, Immanuel Kant, Jürgen Habermas, independência e imparcialidade do juiz, René Descartes, John Locke, a última condição humana, Aristóteles, a sofística, Maquiavel, Grécia e Hipócrates, Clóvis Beviláqua, os sofistas, Grécia antiga e a aplicação da pena, empiristas e racionalistas em Kant, Código de Ética da Magistratura e os princípios da independência, ética e moral e, o pensamento maquiavélico.
São 446 páginas de estudo aplicado, com a densidade compatível ao saber de cada futuro bacharel. O professor Paulo Bonavides, meu mestre em três oportunidades, Escola de Administração, Faculdade de Direito e em curso de doutoramento que o MEC dissolveu, é o filósofo homenageado. Abre com “O Direito Natural e o Estado”, partindo das nascentes históricas do moderno direito natural até, no último capítulo, mostrar a reação conservadora que perfilha, no direito, a escola histórica. Como se vê, a obra que tem a apresentação do Coordenador do Curso de Direito da Unifor, Sidney Guerra Reginaldo, também filósofo, é um documento acadêmico de comprometimento de jovens com a filosofia do direito.
O que me alegra nessa leitura é a certeza de que há algo além dos milhões de jovens brasileiros que se dedicam, depois de formados nas diversas profissões, à dura e objetiva competição para alcançarem a garantia de empregos públicos em que terão bons salários e a certeza da estabilidade na carreira. Os milhões de jovens “concurseiros” são um fenômeno próprio deste Brasil atual. Submetem-se a cursos diretos, outros à distância, formam grupos de estudo, usam a internet, lêem l revistas, jornais, manuseiam livros, apostilas e dicas necessárias para evitar as pegadinhas das perguntas que constam dos exames. Vivem pelo Brasil afora, enfrentando estradas, rodoviárias, aeroportos, dormindo em pousadas e enfrentando, às vezes, a indiferença nas respostas dos já funcionários públicos às suas dúvidas e sonhos.
Este é o Brasil das não-baladas, das não-drogas, dos não presumidos e da não dissipação do tempo, o único bem irrecuperável para o homem. Filósofos, concurseiros, cada um a seu modo, e as suas pacientes famílias e amados acreditam, ainda, que este Brasil precisa deles para o seu porvir. À Luta.
(Em memória de Ivonete Maia, jornalista, professora, filósofa e vencedora no curso da vida)

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/02/2012.

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BENFOLIA – Diário do Nordeste

Há quatro anos fazemos um projeto: saber o que existe de música carnavalesca na cidade. Decidiu-se, não se sabe quem, nem a razão, que Fortaleza não se presta a carnaval. Assim, contra a corrente, instituímos o Benfolia em que compositores e cantores se submetem a uma seleção prévia, dividida em três etapas. Os 12 melhores vão para a final. Tivemos o cuidado de formar um jurado polivalente: musicistas, carnavalescos, jornalistas, homens públicos, arquiteto, médico, intelectuais, rainha do carnaval, produtores etc.
Nesta edição a festa tinha 25 jurados, o que diz da lisura da decisão. As 12 músicas selecionadas são novamente cantadas, há torcidas organizadas e a imprensa é convidada, só não percebeu talvez a sua importância que, além de premiar os três primeiros lugares em dinheiro, gravamos CD com as músicas selecionadas e o distribuímos gratuitamente com participantes, emissoras, comunicadores e formadores de opinião. A cada ano, homenageamos pessoas que, no passado ou presente, trabalham pelo carnaval. Não o Axé Music, mas sambas, choros, modinhas e que tais.
Os homenageados de 2012 foram: 1. o radialista Augusto Borges, por sua história profissional dedicada ao rádio e à televisão e na defesa da música local; 2. o compositor, carnavalesco e apresentador Dílson Pinheiro, divulgador de todas as manifestações mominas, inclusive o sincopado Maracatu; e 3. o figurinista Isidoro Santos, estilista e desfilante de fantasias grandiosas no Ceará e no Brasil. Íamos esquecendo: tivemos um “revival” de concurso de fantasias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2012

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A LEITURA, O LIVRO E A INTERNET – Jornal O Estado

O caderno “Ilustríssima” da Folha, de 05 de fevereiro de 2012, contém o ensaio/crítica “O Erro de Machado”, do renomado Paulo Roberto Pires, crítico literário, professor da UFRJ, debatedor e autor de antologias, acerca das previsões do jovem – e futuro grande escritor – Machado de Assis sobre o fim do livro. Acreditava Machado, em seu “O jornal e o Livro”, de 1859, escrito quando tinha apenas 19 anos, que o livro iria acabar. Empolgado estava com a sua profissão de revisor – conseguida com a ajuda de Manuel Antônio de Almeida – no jornal Correio Mercantil. Nesse mesmo jornal, desde 1854, o advogado, escritor e político consagrado José de Alencar tinha a coluna “Ao Correr da Pena”, enquanto Manuel Antônio de Almeida, médico e jornalista, era o responsável pelo suplemento “A Pacotilha”, onde escreveu, sob a forma de folhetim e, anonimamente, o livro “Memórias de um Sargento de Milícias”.
Em uma parte do seu polêmico primeiro livro, Machado diz: “O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo econômico e do mundo social”. Machado imaginava que o livro iria perder a razão de existir: “O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras: Trabalha! Vive pela ideia e cumpre as leis da criação”.
Diz Paulo Roberto Pires: “Eivado de precipitação, o jovem Machado agarrava-se a certezas – moeda rara em sua obra futura. Naquele momento, porém, cumpria o que em alguma medida se espera de um intelectual em formação: curiosidade, desejo de intervenção e o direito, inalienável, ao equívoco.”
Agora, neste emergente século XXI, se prega, novamente, o fim do livro. Eu, por exemplo, ganhei de presente um I-Pad, esse instrumento portátil e gracioso inventado pela Microsoft na última contribuição de Steve Jobs à cibernética ou informática. Matada a empolgação e a curiosidade, o meu i-Pad ou tablet(tábua) se queda restrito, pois não vejo com prazer uma das suas funções, a de nos fazer ler livros não impressos. Quanta pretensão, essa que vem desde o fim do século passado.
Para quem gosta de ler, os que têm na cabeceira de sua cama uma luz de vigia com foco, uma rede ou uma velha cadeira, nada se compara ao prazer de comprar o livro, ler, virar a página e marcar trechos, com os quais concorda, discorda ou desconfia. O leitor verdadeiro pode até usar o I-Pad e que tais como instrumentos particulares de consulta dos novos dicionário/enciclopédia/conversação do mundo atual, o “Google” e o “Facebook” e outros, mas não há porque decretar o fim do livro como erroneamente pensou Machado de Assis, tal como se imaginava e dizia do fim do jornal quando da criação do rádio e do rádio quando da profusão da televisão. Depois, surgem o computador e, recentemente, essas múltiplas mídias que a geração Y, aquela nascida após 1979, teve à sua disposição desde sempre.
Os jornais sofreram, mas reinventaram-se, fragmentaram-se em cadernos temáticos para os seus vários públicos, postaram suas edições na Internet e criaram links com todas as mídias. Os livros impressos, de capa dura ou meras brochuras, feitos por grandes editoras ou editados por seus próprios autores, convivem bem com todos esses equipamentos, “gadgets”, invenções e congêneres. É bom não esquecer a pergunta – ainda atual – feita por Shakespeare, no século XVI, através do personagem Polônio, em Hamlet, “O que estais lendo, meu senhor”? Você é o que lê, não se engane.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/02/2012.

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DELMIRO E EDSON – Diário do Nordeste

Em 1966, o gaúcho Viana Moog, que havia morado nos Estados Unidos, escreve o livro/ensaio “Bandeirantes e Pioneiros”, comparando a colonização e o desenvolvimento americano geométrico, pela ética calvinista, ao crescimento aritmético brasileiro, decorrente da herança católica e portuguesa.
Agora, Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, agrega à historiografia brasileira, em três livros, seminários e exposição itinerante, retalhos significantes da vida empresarial começando com o menino pobre que virou o Barão de Mauá. Marcovitch parte do século XIX e perpassa o XX e, ao cabo, escolhe 24 empreendedores/pioneiros.
Nesse panteão estão dois cearenses: Delmiro Gouveia e Edson Queiroz. Delmiro nasceu no Ipu. Foi menino para o Recife e lá construiu o primeiro centro comercial no Derby. Ameaçado, vai para os confins das Alagoas extremando com a Bahia, onde explodia gloriosa a cachoeira de Paulo Afonso. Engenhoso e brilhante, Delmiro teve o pioneirismo de criar a primeira hidrelétrica do Brasil para movimentar a sua indústria de linhas. Morreu assassinado aos 54 anos.
Edson Queiroz veio criança de Cascavel, ajudou o pai comerciante e, tal como Delmiro, criou o primeiro centro comercial de Fortaleza, o Abrigo Central. Em seguida, explorou a venda de gás butano em quase todo o país, fundou indústrias, montou um sistema de comunicação e coroou sua vida implantando uma universidade, referência no Nordeste. Edson empregava milhares de pessoas quando faleceu aos 57 anos. Recomendo a todos em busca de um destino essa educativa exposição no Espaço Cultural da Unifor. Vale a pena. É grátis. Vá.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2012.

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FORTALEZA VIVA – Jornal O Estado

Deparo-me, por acaso, com um livro rico de capa dura e uma bela paginação intercalando textos, fotos antigas e contemporâneas. Sua capa mostra a Praça do Ferreira, não a antiga, mas a revisitada ou relida pelos arquitetos Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Creio que não entendi bem a explicação da foto da capa: “Praça do Ferreira – no fim dos anos 1960, a Coluna da Hora foi demolida, e em projeto de 1991 retornou à praça…”. A bela foto de Gentil Barreira já é da praça reformada em 1991. A estrutura da antiga Coluna não era em aço. A que aparece na capa é a releitura estética de Delberg e Fausto. Não há década de 1960. Há a década dos anos sessenta. Tirando esses pequenos detalhes, afora outros, há que se louvar a pesquisa de muitos e a organização de Patrícia Veloso, para a Terra da Luz Editorial. “Viva Fortaleza” teve o forte e decisivo apoio da Oi Futuro, Newland, Guanabara, Sobral & Palácio e o patrocínio da Oi, Coelce e Banco do Nordeste. Consta como realização do Ministério da Cultura, sem menção à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, tampouco da similar da Prefeitura de Fortaleza.
O exemplar que li me foi dado, a pedido, pelo engenheiro civil Luciano Cavalcante Filho, um dos responsáveis por incorporar edifícios sitiados no antigo bairro do Outeiro, hoje Aldeota, bem como na orla marítima. Fortaleza, em agosto de 1950, me via de calças (curtas) e paletó de casimira azul marinho com camisa branca, em trajo da Primeira Comunhão, na Rua Floriano Peixoto, entrando no Foto Moderno. Esse estúdio ficava do lado do sol, como se diz por aqui, no trecho entre as ruas Pedro Pereira e a antiga Trincheiras, depois Liberato Barroso. O calor do pós chuvas não era sentido por mim, garboso infante que, de vela enfeitada e laço de fita no braço direito, deixava-me fotografar.
Dali, com a minha mãe, fomos andando a pé para comer pastéis com caldo de cana na Leão do Sul, mercearia sortida, que ficava no lado sul da Praça do Ferreira, defronte ao Posto Mazine, no começo do antigo Beco dos Pocinhos, depois Rua Pedro Borges. Quase três da tarde. Saciados, ouvimos o repicar das triplas badaladas do antigo relógio da Praça do Ferreira. A praça de então era sombreada com fícus benjamins e dividida em alamedas paralelas que albergavam carros particulares e os de praça, precursores dos futuros táxis. No seu lado norte, entre a Rua Guilherme Rocha e a Travessa Pará, fulgia o novo Abrigo Central, construído, mediante licitação, na administração do Prefeito Acrísio Moreira da Rocha, pelo jovem empreendedor Edson Queiroz. Atravessamos a praça em diagonal e entramos na loja Flama, afamado magazine, vizinha ao edifício São Luiz que se erguia morosamente. Pulemos para o ano 1959. Meu pai havia comprado uma casa de pescadores (lado do mar) para passarmos as férias na praia. Era na altura da atual Nunes Valente. Mero calcamento tosco. Logo após veio o começo da construção, a casa foi ao chão, a via ficou pronta em 1963 e em 1964 recebeu o nome de John Kennedy, em homenagem ao presidente americano assassinado em 23 de novembro do ano anterior. Protestos de muitos a fizeram passar a ser a Av. Beira Mar. Isso já é outra história.
A publicação começa com uma profunda análise de Paulo Linhares sobre “A Fortaleza de Alencar” e agrega textos de qualidade de Ângela Gutiérrez, A. Carlos Coelho, Cláudia Albuquerque, Clélia Lustosa, Demitri Túlio, Fausto Nilo, Francisco Neto Brandão, Gylmar Chaves, Isabel Gurgel. Kadma Marques, Lira Neto, Natércia Pontes, Oswald Barroso, Peregrina Campelo, Régis Lopes e Romeu Duarte. As fotografias são de Alex Costa, Alex Uchoa, Bia Sabóia, Drawlio Joca, Fábio Lima, Gentil Barreira, JoOão Luís, João Palmério, Leo Kaswiner, Lia de Paula, Maurício Albano. Nelson Bezerra, Silas de Paula e Thiago Gaspar. Além de textos e fotografias atuais, esculturas de Sérvulo Esmeraldo e Zenon Barreto, contém ainda acervos fotográficos e objetos de pessoas amantes da cidade.
Esta sofrível e corrida Ficha Técnica tem apenas o objetivo de despertar a curiosidade dos que aqui viveram entre 1950-2010 ou a ela foram chegando, vindos do interior e de outros estados. Escolhi apenas a Praça do Ferreira como chamariz, pulmão e alma de Fortaleza. E um mero registro da construção da Av. Beira-Mar. O resto da cidade poderá ser descoberto, por cada leitor, na tessitura dos textos, nas breves legendas de Ângela B. Leal e Roberta Felix que adornam a profusão de admiráveis fotos, a tradução para o inglês e os agradecimentos que encerram as suas 240 páginas. Parabéns a todos os que participaram desse trabalho singular feito em 2011 e, desde já, histórico. Viva Fortaleza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/03/2012

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LIMPAR TUDO – Diário do Nordeste

É hora de limpar tudo. Não só a classe política deve ter ficha limpa. Todos precisam ter ficha/vida limpa. Quais as razões de pessoas, ou seus grupos, se perpetuarem no poder em entidades de classe que usam dinheiro das empresas e trabalhadores? Como admitir que eleições sindicais e classistas sejam, quase sempre, um simulacro?
Você tem ideia do gasto com essa conjuração que remonta ao século XX? Pesquisem pela internet e verifiquem quem comanda o quê. Há dirigentes reeleitos de certas entidades empresariais que nem empresas possuem. O mesmo acontece em alguns sindicatos de trabalhadores. A gastança é grande.
Brasileiro não deve ter medo ou ser subserviente, seja pessoa, empresa, entidade ou repartição pública. A cidadania dá direitos iguais a todos. Se você endeusa alguém, ele(a) passa a acreditar que realmente é importante e o olha de cima para baixo. O Estado não faz favor quando cumpre bem a sua tarefa. Não seja Maria vai com as outras. Cobre resultados pelos muitos impostos pagos.
Você tem direitos. Veja o art. 5º. da Constituição. Nada é de graça no Brasil. Informe-se, leia, critique, opine. Exija sempre nota fiscal ao comprar. É seu direito. Como ficar indiferente se todos os dias os meios de comunicação mostram escândalos envolvendo poderes, ongs, fundos de pensão, empresas, bancos, fundações, licitações e concessões? Toda autoridade recebe delegação da sociedade. Se não cumprir, rua. Os agentes públicos devem satisfação e transparência à sociedade. A hora do bem bom passou. Ficha limpa para todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/03/2012.