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O TEMPO E O ESPELHO – Jornal O Estado

“Quanto mais envelheço, tanto mais desconfio da crença comum de que a idade traz sabedoria” H.L. Mencken
Para todos, o dia tem 24 horas. Temos um relógio incrustado em algum lugar de nossa mente que sempre confirma o passar do tempo. Cada segundo é tempo diminuído da nossa conta-corrente de vida. Não há como pedir tempo, como se estivéssemos jogando uma partida de vôlei, futebol de salão ou basquete. O jogo não tem sequer intervalos. As noites insones, e as de sono inquieto ou profundo, também são lançadas no passivo da vida. Assim, a cada dia, vamos saindo do berço, dos cueiros, para o engatinhar, cair, levantar, andar e daí sair para a escola, a faculdade, o trabalho, a vida a dois, a solidão desejada ou auto-imposta pelas circunstâncias.
Hoje, 1º de outubro, se você não sabe, é o dia consagrado ao idoso, em face do Estatuto nacional que regula e presume proteger as suas relações com a sociedade. Mas, afinal, o que é ser idoso? Será a diminuição das faculdades vitais ou a expulsão, por decurso de prazo, do mercado de trabalho? Será o limiar do desengano? O ponto do não retorno? A ausência de objetivos? A perda do viço ainda existente em árvores centenárias? A não obrigação de fazer? Ou o desamparo sentido ao olhar o tempo perdido? Não o poético andamento proustiano, mas a fala não dita, a atitude não tomada, a posição não assumida, o perdão não obtido, a incapacidade de se auto aceitar em frente ao espelho real, esse aliado eterno do tempo.Ele conhece a nossa face, sabe de nossas rugas, vê os olhos mudando de dioptrias, repara na curvatura das sobrancelhas, não esconde os vincos do pescoço e o cair dos cabelos que se tornam cinza e em brancos se findam. Mas, o que é um espelho? Socorro-me de Clarice Lispector: “É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio… esse alguém percebe o mistério da coisa”.
Por outro lado, estar idoso é ter a dimensão da finitude, de traduzir a vida não como tragédia, comédia ou farsa, mas como uma seqüência de atos que praticamos por nossa própria vontade, herança genética ou dos costumes, bons ou maus, adquiridos no compasso ou sincopado das relações humanas.
Estar maduro, idoso, não é mérito, embora ninguém deseje morrer jovem. Estar idoso pode ser prêmio ou maldição. Depende, sempre, da terra que aramos, das sementes plantadas, da rega que fizemos e do cuidado com as ervas daninhas. Hoje, neste dia dedicado aos maiores de sessenta anos, é preciso que todos nós, idosos e os que os cercam, bem como os que, com ou sem razão, os abandonaram, coloquem a pesar os pratos das contas-correntes que forjam a balança da vida e tirem suas conclusões. Sem esquecer nunca que você é o que sente ou o que deixa ser plantado em sua mente que, quase sempre, mente.
Dedicado a Francisco Lima Freitas, ativo e capaz, na pista oitentona.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/10/2010.

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LULA, O DIPLOMATA – Diário do Nordeste

Os Estados Unidos têm sindicalismo forte há muitas e muitas décadas. Lembro que, ainda universitário, vi como a mais poderosa universidade do país, a Harvard, situada na rica Nova Inglaterra, respeita e até convida a maior e mais poderosa central sindical do país, a AFL-CIO, para seus cursos. Naquela ocasião, o “speaker” dessa central nos dizia algo como: a minha família era muito pobre, mas orgulhosa. Todas as visitas não passavam da sala bem cuidada. O que estão fazendo com vocês é semelhante, mostram a parte bilionária e bonita da América. E aí começou a falar do que considerava a parte oculta do país.
Agora, de Washington para o Valor, o jornalista Alex Ribeiro, refere ser o presidente Lula fiel amigo da AFL-CIO e, especialmente, do advogado, com curso na Harvard, Stanley Gacek, de quem recebe, há 27 anos, conselhos de como lidar com os vários públicos com os quais interage no governo, sindicalismo e mundo empresarial dos USA. Gacek já foi diretor internacional da AFL-CIO e, agora, assumiu cargo no Departamento (ministério) do Trabalho do governo Obama. O que se depreende da reportagem é que Gacek foi e é um “conselheiro” informal de Lula e, ao mesmo tempo, avalista das políticas do governo brasileiro, mostrando-o distante do “Eixo do Mal”, formado por Venezuela e Cuba. A frase de Obama: “Lula é o cara”, pode ter sido soprada por Gacek, acreditado por ser harvardiano, tal como Obama.
Agora, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, acaba de estar em Cuba para dizer da necessidade daquele país dar mais ênfase ao processo de distensão da política interna e externa, com a liberação de prisioneiros com voz dissonante da dos irmãos Castro e conseguir o fim do embargo. De Havana, o embaixador Celso Amorim foi direto para Nova Iorque onde se reuniu com a ex-prisioneira do Irã, a americana Sarah Shourd. Esta, em reunião pública, elogiou os esforços do governo brasileiro para auxiliar a sua libertação, ora acontecida. Disso tudo fica claro que Lula tem mantido sua imagem midiática internacional para a conquista de um relevante posto em organismo internacional. 2011 confirmará?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/2010.

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24 DE SETEMBRO: AMOR POR A+B – Jornal O Estado

Um desmaio. A perda da direção. Carro desgovernado. Uma árvore, o choque. Hospital. O telefonema recebido ao longe. E eu vim voando do Rio, chorando em silêncio. Aqui, soube da perda no primeiro contato com o médico. Aguentei firme, calado. Dias depois, a délivrance. Fiz o caminho entre aquelas árvores frondosas com o filho morto aos braços levado. A dor nublava a manhã de sol que me fazia desvalido.
O tempo, este curativo da vida, foi passando. E como um raio de luz, chegou saudável, querida, a primeira das filhas. Recebida com a alegria de pais novatos, mas já sofridos. E era o caminho do fulgor de um 24 de setembro, a data de hoje, a que consagrei para sempre, ao vestir, simbolicamente, o manto aconchegante da paternidade querida. Agora, ali no berçário da maternidade, repousava a bela menina, ralos cabelos aloirados, que passara por todos os exames preliminares de sanidade. E aí voltou a emoção.
A dor atravessada se transmudava em alegria incontida. Precisava contá-la a meus pais, irmãos, parentes e amigos. E fui a uma gráfica. Escrevi o texto anunciando a alegria do seu nascimento. A afeição derramada em palavras na comunicação escrita com letras cursivas em cartão de linho vincado. E assim foi feito, querida filha. Dias depois, chegava à nossa casa, plena de cuidados, posta em berço em madeira de lei, detalhes artesanais torneando suas grades, como a dizer da alegria de bem recebê-la com o protetor cortinado de renda e bicos. E quis Deus, que essa menina, com nome belo e forte, anos após, comemorasse um aniversário.
Por e com amor, havíamos, eu e sua mãe, construído uma casa de boneca. Fizemo-la em alvenaria, coberta com telhas coloniais, janelas, portas, piso e água corrente na micro-pia da cozinha. E, já pronta para a festa aniversária, sua mãe, grávida de oito meses, abaixou-se para olhar o interior daquela belezoca de brinquedo. E aí se deu o rompimento da bolsa placentária envolvendo uma outra irmã, prestes a nascer.
E essa irmã e filha, de tão fraterna, possa ter dado um solavanco maior naquele mundo aquoso em que navegava para vir participar dessa festa neste planeta azul. E assim se fez. Você chegou de improviso, no mesmo 24 de setembro. E enriqueceu com a sua vinda, graça e brejeirice antecipada a brincadeira naquela casinha de bonecas feita para vocês, bonecas vivas. A vocês, neste seu dia deste novo século, com realidades, dores, amores e sonhos, renovo meu amor pronto, decidido, encabulado, talvez melhor escrito que falado, mas não menor que o maior que um pai possa dedicar a filhas queridas. Parabéns.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/09/2010.

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CINEMA ESPÍRITA – Diário do Nordeste

Sou cinemeiro inveterado. Vejo filmes na telona todas as semanas. Vi, por exemplo, “Nosso Lar”, projeto continuado do jovem cearense Luís Eduardo Girão, filho do distante, mas lembrado amigo Clodomir. O primeiro filme dele foi “Bezerra de Menezes”, médico benemérito e espírita. Depois, emendou com “Chico Xavier”, famoso médium mineiro, e já tem quase prontos para 2011 “Área Q” e “As mães de Chico Xavier”. Luís Eduardo criou uma produtora de cinema e artes, a Estação Luz, com a qual, em outros projetos, procuro participar colateralmente. O fato é que ele mexeu em grande manancial de histórias que rondam o imaginário dos espíritas em geral e dos muitos crentes e até ateus desse sincrético Brasil. Não está em jogo neste alinhavado a qualidade técnica dos filmes, sequer a crença ou descrença nessa fé, que não se vê como religião. Não interessa aqui o que achei da interpretação, dos diálogos ou da fotografia de “Nosso Lar”. O manifesto nesta narração é a coragem do produtor Luiz Eduardo, o atrevimento da sua parceria em “Chico Xavier” com o cineasta Daniel Filho que, diga-se de passagem, ficou com a parte do leão na divisão dos resultados. Vão dizer que Luiz Eduardo não é cineasta. Mas é, pelo menos, destemido descobridor de uma segmentação estética que foge da violência urbana, do intimismo capenga, do humor escrachado ou da pobreza da caatinga. Seu êxito passa pela divulgação em revistas nacionais, jornais do Rio e paulistas em razão do público alcançado de um milhão de pessoas que saiu de suas casas e entrou em 453 salas de cinema espalhadas em todo o Brasil, em menos de um mês. A própria revista “Veja” procura, em vão, filosofar sobre crenças e, sem muita convicção mistura Shakespeare, o mágico canadense James Randi, os evangelistas, o Corão, o Budismo e até Madonna, entre outros. Tudo isso reunido apenas porque Luiz Eduardo teve a coragem de mudar pressupostos, investir os próprios recursos e ter fé no trabalho, sempre cercado de razoáveis profissionais, criando um paradoxo. Jean Cocteau, artista e cineasta francês, falecido em 63, dizia que “as críticas julgam as obras e não sabem que são julgados por elas”. O público escolhe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/09/2010.

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MÉXICO, BICENTENÁRIO E REVOLUÇÃO – Jornal O Estado

O México, como o Brasil, é um país derramado em prosa e verso, vive da palavra, especialmente a de Octávio Paz: “a palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. O México é também um país fustigado por lutas e guerras, mas teima em viver em paz. Agora, está travando uma luta desmedida contra o narcotráfico. Sua posição na América do Norte onde faz larga fronteira com os Estados Unidos o abençoa e maldiz. A frase: “México: tão longe de Deus e tão perto do demônio” é atribuída ao ex-presidente Porfírio Díaz. Pois é.
O demônio de hoje é a droga vinda da América do Sul que por lá trafega em direção aos Estados Unidos. Sua bandeira tricolor em verde, vermelho e branco com uma águia devorando uma serpente, simboliza Cuauhtémoc, um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria asteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes”. Neste 16 de setembro o México comemora o início de duas lutas, o do Bicentenário da Independência Nacional (1810) e cem anos da Revolução Mexicana (1910).
São momentos distintos no maior país de língua hispânica das Américas. A Independência mexicana levou quase onze anos para se tornar concreta, a partir do Grito de Dolores, em 1810, episódio comandado pelo padre Miguel Hidalgo, até 1821, com Agustín de Iturbide. A Revolução, surgida em novembro de 1910, cobrava o fim da oligarquia reinante e pretendia ser socialista. Sua grande figura foi Francisco Madero, sem esquecer de Emiliano Zapata e Pancho Villa.
O grande feito da Revolução Mexicana foi a Constituição de 1917 que eliminou a reeleição presidencial e deu ao país uma diretriz para o futuro. Frida Kahlo, pintora – mulher do também pintor e muralista Diego Rivera – foi uma das figuras emblemáticas do processo pós-revolucionário por ter se engajado, na juventude, no Partido Comunista. Frida, segundo consta, foi amante do intelectual russo e marxista LeonTrótsky, que morreu assassinado no México, onde se exilara, em 21 de agosto de 1940, pelo espanhol Ramón Mercader, a mando do Chefe de Estado da URSS, Joseph Stalin, de quem era adversário.
Nesta semana do Bicentenário, o Consulado Honorário do México no Ceará tem orgulho de mostrar em Exposição, que vai até o dia 24, na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, um pouco da História desse grande país, com 110 milhões de habitantes que, entre outras grandes conquistas e honrarias, possui dois prêmios nobéis. O primeiro, o da Paz, concedido ao diplomata Alfonso García Robles, em 1982. O segundo, o de Literatura, ao escritor Octávio Paz, em 1990. São duzentos anos de construção de uma identidade nacional. Bravo México.

* João Soares Neto é Cônsul Honorário do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/09/2010.

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LEITURA E LIVROS – Diário do Nordeste

Recebo e-mail de autor desconhecido com pinturas e frases sobre leitura e livros. Resolvo aproveitar as interessantes. Começo com a quase brasileira Clarice Lispector: ”Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e, de súbito, uma frase lida com lágrimas nos olhos…” Mudo para Henry Miller, escritor erótico americano, autor da trilogia Nexus, Sexus e Plexus, que dizia: “Devemos ler para oferecer à nossa alma a oportunidade de luxúria”. Jorge Luís Borges, escritor argentino que, pouco a pouco, foi cegando e lia pela voz dos outros, mesmo assim afirmava: “O livro é uma das possibilidades de felicidade que dispomos”.
A poeta mineira Adélia Prado, imitando o Cântico das Criaturas, de São Francisco, criou o “Louvai ao Senhor, livro meu irmão, com vossas letras e palavras, com vosso verso e sentido, com vossa capa e forma, com as mãos de todos que vos fizeram existir. Louvai o Senhor”. Vejam, citei Clarice, Miller, Borges e Adélia e ainda estou no meio do meu espaço.
É que a escrita, quando é nossa, sai aos borbotões, mas a colagem a que me propus é mais difícil que criar o próprio texto. Entretanto, a tarefa tem que ser cumprida e me valho agora do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor de “A sombra do vento”. Quando afirma: “Cada livro, cada volume que vês tem alma, a alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte”. O atormentado escritor checo Franz Kafka, autor de “O Processo” acreditava que “um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados de nossa alma”. Tentei mostrar que usar texto alheio, mesmo falando sobre leitura e livros, foi tarefa que não me afagou.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2010.

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RENATA, LUCIANA, ILAILSON, LUIZ CARLOS, HONÓRIO E ARARIPE, ADMINISTRADORES. – Jornal O Estado

Quando a Escola de Administração do Ceará foi fundada nos anos sessenta havia uma vaga ideia do que viria a ser a carreira que, à época, era chamada de Técnico de Administração. Sem entrar em detalhes, a Escola de Administração foi instituída já com professores efetivados: misturaram professores, alguns de nomeada, com políticos, uns vitoriosos, outros nem tanto. Houve luta dura da primeira turma a sofrer discriminação quando se abrigou no prédio da então Faculdade de Economia, da UFC. Aconteceu até perda de ano letivo. O Ministério da Educação não reconheceu sequer o primeiro vestibular. Ano e vestibular repetidos, prédio alugado na Avenida Duque de Caxias, goteiras no teto, alguns professores faltosos e até alunos revoltados, denunciando.
Depois, o tempo foi mudando e a Escola se firmou. Esta pequena digressão é para dizer que para colher frutos, muitos tiveram que revolver a terra, escoimar ervas daninhas, plantar ideias, regar e deixar o caminho pronto para os que vieram a seguir. Esses receberam uma Escola com sede própria, na Rua 25 de Março, Sempre será preciso lembrar uma placa de bronze que estava em um patamar entre o térreo e o primeiro andar da sede. Essa era a placa da Turma Pioneira, a que sofreu, lutou e amou o que era apenas uma ideia em formação. Hoje, décadas depois, isso pode não importar mais, dezenas são as escolas de administração existentes em universidades, faculdades e afins. Agora, frutos são colhidos.
Última quarta-feira, para alegria nossa, seis colegas foram homenageados no ensejo da Semana do Administrador. A Assembleia Legislativa do Ceará, por proposição do Administrador e Deputado Estadual Sérgio Aguiar, escolheu seis nomes de destaque como administradores. São eles: Renata Queiroz Jereissati, Luciana Dummar, Honório Pinheiro, Luiz Carlos Barreira Nanan, Ilailson Silveira de Araújo e Francisco de Assis Moura Araripe. Renata Jereissati configura a conjunção do conhecimento e da discrição. Alia à sua condição de administradora à capacidade de germinar êxitos com prudência e talento em seus múltiplos afazeres, preservando sua individualidade e a do parceiro de vida; Luciana Dummar, administradora em formação continuada por iniciativa do pai, de quem se tornou sucessora imprevista na dor escancarada mas, paradoxalmente, sóbria, transformada em líder de família, comandante de empresas e consorte de companheiro de trabalho. Honório Pinheiro chegou pelas adjacências da cidade, descobrindo nichos, acreditando na formação profissional superior, na inovação e no trabalho com valor agregado. Acercou-se da CDL, se fez liderado e líder, abriu horizontes em Fortaleza e retomou maduro, o caminho do interior, em respeito às suas raízes. Luiz Carlos Barreira Nanan, filho do municipalista Américo Barreira, destacou-se como líder inconteste de uma profissão emergente à época sufocada e tornou-se presidente do Conselho Regional no seu ressurgimento democrático. Ilailson Silveira de Araújo, quase da turma pioneira, se fez mestre em sala de aula, gestor com ideias empresariais inovadoras em seus negócios e líder classista na condução dos destinos da categoria emergente, da qual foi presidente. Por último, Francisco de Assis de Moura Araripe, administrador que se consolidou, por mérito e vocação, em professor universitário e, por duas vezes, em tempos distintos, Reitor da Universidade Estadual do Ceará – Uece, onde dá especial ênfase à carreira que integra.
A todos os seis, administradores provados, singulares em seus saberes, a nossa admiração e o reconhecimento público. À Assembleia Legislativa do Ceará, nas pessoas do seu presidente Domingos Filho e do Dep. Sérgio Aguiar, os parabéns pela justiça na escolha dos homenageados.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/09/2010

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DOS PÉS À CABEÇA – Diário do Nordeste

Você poderá ver, de graça, nesta semana da Pátria, na Galeria Benficarte, a mostra “Dos pés à cabeça”. Nessa exposição, a face histórica do Brasil é mostrada. Ela começa no princípio do Século XIX. Nada da face vivida tristemente na Copa do Mundo da África do Sul, meses atrás, em que os pés dos atletas faziam – ou não – a glória da história do esporte de cada país e mexiam com as nossas cabeças. O que está posto é o nascimento da Nação brasileira, surgida, na verdade, com a forçada vinda da família real portuguesa, em 1808. Enxotados de Lisboa pela fúria expansionista do Imperador francês Napoleão Bonaparte, que visava o bloqueio continental, a Corte portuguesa veio, pressurosa, abrigar-se na ainda pacata cidade do Rio de Janeiro. O Rio os recebeu com atenção, mas não havia aonde alojar tanta gente. O que se fez? Os portugueses foram ocupando o que de melhor existia em imóveis na cidade, ainda sem esgotos e acanhada.
A vinda da Corte foi o estopim involuntário de toda a fermentação política germinada na cabeça dos brasileiros que culminou com a eclosão da Independência, em São Paulo, em 07 de setembro de 1822. D. Pedro I, que acabara de ingressar na maçonaria, rebelou-se contra a pátria-mãe. É isso o que mostramos nessa breve montagem histórica, de forma simples e didática. Germinava, a partir do Grito do Ypiranga, o sentimento nacional ainda em construção, dia a dia, por todos os brasileiros.
“Dos pés à cabeça” é um chamamento à razão. É tentativa de mostrar a todos a história que se edifica com o trabalho, a dignidade de viver, a capacidade de aceitar as adversidades naturais ou criadas por terceiros e dizer que a solução dos problemas brasileiros passa pelo uso da razão, a cabeça. Não as cabeças que só pensam no seu entorno, na sua grei. Pelo questionamento dos que nos é imposto de todas as formas e mídias, pelo comprometimento pessoal com o que acontece no Brasil de hoje. Somos todos, mesmo sem querer, dependentes das ações dos outros. Por esta razão, insistimos: esqueçam um pouco os pés. Não chutem. Usem a cabeça. É independência ou morte.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/2010.

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A MINA E A SOLIDÃO – Jornal O Estado

O jornalista Alonso Soto escreveu, reproduzindo notícias da Agencia Reuters, sobre as relações humanas entre mineiros soterrados no Chile e seus familiares. Foca bem no caso de Lilianet Ramirez, 51 anos. A notícia diz, mais ou menos, o seguinte: ”Copiapó- Abraçada a um bilhete amarfanhado, escrito a 700 metros de profundidade por seu marido, preso há semanas numa mina, Lilianet redige sua primeira carta de amor em várias décadas”.
O bilhete que Mario Gómez, 63 anos, enviou no domingo à superfície, prometendo em breve rever a mulher, comoveu o país. Até então, não se sabia se os 33 mineiros presos na mina de San José, após desmoronamento, estavam vivos ou mortos. Agora, Lilianet terá pela frente uma longa espera de três a quatro meses, enquanto engenheiros e outros técnicos perfuram nova galeria até o refúgio em que os homens se encontram. Eles sobrevivem graças à água que escorre da perfuração, e do ar que entra por dutos de ventilação. Já instalaram tubos plásticos – chamados de “pombas” – pelos quais enviam glicose, gel de hidratação, nutrientes líquidos e remédios aos mineiros. Eles pretendem enviar cartas também. “Dá para imaginar? Após 30 anos de casamento vamos começar a nos mandar cartas de amor outra vez”, disse Lilianet, rindo, apesar do cansaço, após mais de duas semanas instalada no acampamento batizado de “Esperança”. “Quero lhe dizer que eu o amo demais. Quero lhe dizer que as coisas serão diferentes, que teremos uma nova vida”, disse ela. “Vou esperar o quanto for necessário para ver meu marido outra vez.” Na prática, acredito que a ameaça de perder Lillianet reabriu o nível anterior de conquista e as emoções relacionadas a este foram reavivadas.
As equipes de resgate encontraram o bilhete de Gómez preso à broca usada para localizar os mineiros. “Vejo vocês em breve (…) e vamos ser felizes para sempre depois disso”, escreveu o marido. Mas, há também espaço para confusões. O agricultor Alberto Avalos, de 42 anos, tem um sobrinho soterrado: “Honestamente, quero perguntar a ele que diabos estava fazendo lá embaixo da mina. Quero amaldiçoá-lo por ter nos deixado tão preocupados”,
Thomas Mann, no seu livro “Morte em Veneza”, falando sobre a solidão, diz: “A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito”. Em resumo, digo eu: por que razão essas notícias mostram ser necessário que as pessoas se apartem, que ocorram cataclismos ou grandes traumas, para descobrirem a necessidade de ficar próximas? O que nos leva a, quase sempre, não enxergar a pessoa que está ali ao lado, seja amor, amigo ou parente? O que nos torna indiferentes ao já conquistado ou a quem sempre está disponível? Qual a cegueira ou descaso que parece dominar as relações duradouras? Nem todos precisam ficar presos em uma mina para que descubram seus sentimentos.
Enfim, você acredita que essas cartas são frutos do amor ou apenas refletem a solidão e a apreensão de quem se imagina próximo da morte, no caso de Gómez, ou da possível iminente viuvez de Lilianet? Quando estiverem juntos, refeitos da dor, serão maduros para o reencontro afetivo que prometem?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/09/2010.

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MAKING OFF – Diário do Nordeste

Semana passada, lancei meu sexto livro, Gente que Conta. Quero dividir com você a luta que se tem para escrever e, mais ainda, lançar um livro. Neste último, para fugir das crônicas e contos, enveredei por duro caminho, o da entrevista histórica e aí começou o fado. Demorei sete anos para concluir o livro com 16 nomes expressivos. No último mês, defini data para o lançamento: 19 de agosto, quinta-feira, noite tradicional para eventos culturais. A Oboé já estava comprometida. Ousei, então. Marquei o dia 20, sexta-feira à noite que não costuma ser usada para tal fim. Fiquei temeroso. Os convites não saíam. Só dez dias antes ficaram prontos. Não mais existe lista telefônica de endereços/pessoas. Amigos mudam de casas e de telefones. Zorra. Contratei empresa de entregas e os enviei, nominalmente, com palavras curtas e assinatura.
Estresse aumentando, endereços errados ou antigos. Enquanto isso, o livro, o dito cujo, não ficava pronto. Mudei seis vezes o formato da capa, catalogação, e decidi não revisar o miolo, o texto. E o dia, chegando. Só na quarta, 18, recebi o livro pronto. Estava bonito, no olhar de pai coruja. Os nomes dos entrevistados em ordem alfabética, capa dura, cor telha. Agora faltava o evento: comprar vinhos. Escolhi duas uvas, Cabernet Sauvignon, a minha, e Merlot, a da maioria. Preparei painel grande com fotos dos entrevistados, com quem falava ou com suas famílias. Havia receios pelo contato público, deslocamento, idade, saúde etc. Conto só um caso: ligo para Elano Paula – chegaria na quinta – sobre a saúde do seu irmão Chico Anysio, retornado ao hospital. Ouvi tudo e o liberei: fique no Rio, o Chico precisa de você.
O dia 20 chegou pleno de outras lutas, afazeres. Em casa, cinco da tarde. Escrevi a fala. Na hora de imprimir, o cartucho rateou. Ri: vou de improviso. Lembrei: os convidados precisam de segurança. Providenciei. Vesti-me, trânsito louco. Esbaforido, cheguei às sete. Logo, um amigo me pega pelo braço: “autografe aqui”. Fila, para quê? E assim foi. Por horas. Este é o “making off” do livro e do lançamento. Obrigado a cada um dos muitos amigos que lá estiveram.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/2010