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2008 É 10 – Diário do Nordeste

Percebi que, somando todos os números do ano de 2008, se obtém 10. No sistema decimal, 10 é a nota máxima. Os jovens, ao se referirem a alguém que é bom, dizem ´você é 10! ´. Dessa forma, vamos todos crer que o novo ano que chega será o máximo ou, no mínimo, bom. Terá a força da cor vermelha a lembrar sangue, vida, energia e movimento. Dizem os que entendem – o que não é o meu caso – que números que somam 10 significam 1 em numerologia, pois nela o zero nada representa. Assim, poderíamos supor que será, igualmente, o primeiro, o 1 que se expressa pela criatividade, inteligência, argúcia, competência e independência. Essa divagação, pseudo-esotérica, é um alerta de que nós fazemos o ano, com a nossa vida, sangue, energia e movimento. Esses elementos se somam à nossa capacidade de trabalhar, inventar, criar algo de forma original e, acima de tudo, ser independente. Usar o seu sangue, energia e movimento significa que você não deve ficar aí parado. Novos rumos podem ser encontrados, sendo inventivo e livre. Desse modo, ao chegar o próximo dia 01, terça-feira, feriado, faça limpeza na bagunça de seus relacionamentos, papéis, roupas, entulhos mentais ou de sua casa e trabalho. Mantenha algo natural, vivo, ao seu lado, preferencialmente uma árvore, um vaso de plantas ou flores, e aceite que o meio ambiente é seu e sua preservação depende de você.
E, mais que isso, é necessário que você propague a ideia de que, se bem cuidado, ele melhorará a nossa vida com ar puro, oxigênio e coisas tais. Abra as janelas, mas cuide de saber se não há gente negativa ou ladrões por perto, deixe que o sol entre em todos os cantos, especialmente no seu lugar de dormir ou trabalhar, que deve estar asseado. Use roupa limpa, mesmo que velha. E não esqueça de ter fé e acreditar no que faz, sem essa de fingir ser isso quando é aquilo. Assuma-se, respeitando o seu corpo magro ou gordo, a idade que tem, sem pensar que o tempo não passa. Mas passará bem melhor se você souber usá-lo a seu favor, vivendo o hoje, pois o futuro sempre será o amanhã.

JOÃO SOARES NETO,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2007.

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FELIZ LIVRO NOVO – Jornal O Estado

Este virar de ano nos acena com uma conspiração nova, a de retomar o gosto pela leitura. Uma espécie de ONG ‘Leia Mais’ e uma organização social ‘Fique Lendo e não seja assaltado’ estão propagando nomes de autores cearenses que poderão ser visitados em livrarias e de lá saírem com você para a sua casa. Eles vão mostrar a você todos os seus sonhos, desejos, indignações, amores e desditas. Eles se revelam no que escrevem. Seja em prosa ou verso. Você ficará íntimo deles,
Você passa, por exemplo, na livraria Livro Técnico e pergunta ao Sérgio Braga o que tem de bom na atual literatura cearense e, certamente, ele mostrará muitos títulos e autores. Depende do que você gosta de ler: poesia, crônica, conto, ensaio e romance. Há tanta pessoa iluminada nesta terra que você pode, por falta de informação, preconceito ou comodismo, estar perdendo momentos prazerosos de leitura.
O livro é um mundo pequeno ou grande, só depende do olhar de quem o lê e de sua história pessoal, pois há um entrelaçamento entre o que você lê e o que sente. Muitas vezes, tem perguntas e respostas que não sabemos ou ousamos formular. Você que lê jornal está a um passo dos livros. Ao terminar de ler este jornal, espreguice-se, olhe o lá fora e pergunte a si mesmo qual foi o último livro que leu. Não lembra? Ótimo, está na hora de voltar a ler. Vamos começar pelas mulheres. Não deixem de ler Ana Miranda, Ângela Gutiérrez, Beatriz Alcântara, Giselda Medeiros, Natércia Campos, Regine Limaverde, Tércia Montenegro e tantas outras.
Entre os homens, para falar só nos vivos, vou lembrando de Airton Monte, Alcides Pinto, Almir Gomes de Castro, Audifax Rios, Carlos Augusto Viana, Carlos Emílio, Barros Pinho, Batista de Lima, Dimas Macedo, Francisco Carvalho, José Teles, Juarez Leitão, Pedro Salgueiro, Luciano Maia, Lustosa da Costa, Rui Câmara e uma pá de outros valorosos escrevinhadores, todos servidores de leitores desconhecidos.
Acredite, ler não é perda de tempo, é entrar em sintonia fina com você mesmo, sem precisar de testemunha. Basta um livro, luz do sol ou da lâmpada e pernas jogadas sobre qualquer rede ou sofá velho. Ia esquecendo: eu, por exemplo, leio sempre e mais de um livro ao mesmo tempo, alternando a leitura. Gosto de ler com um lápis à mão, especialmente se tiver uma borracha acoplada. Com ele vou grifando, discordando ou anotando o que me parece certo, risível ou errado. Faça isso nesse ano novo. Essa é uma forma segura de alimentar a sua alma, essa que conhece todas as suas mazelas e glórias e, nas noites insones, diz em seu silêncio: vai dormir, deixe de frescura.
Na primeira nervura do ano alvoreça o seu espírito, esqueça os erros seus e os do mundo e vá de livro novo, esse companheiro silencioso, capaz e disponível, que está ali ao seu lado, todas as horas, para o que der e vier. Feliz 2008.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2007.

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O POETA DO TRAÇO – Diário do Nordeste

Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica. Manhã cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso vê-lo por inteiro. Baixo, calvo, calça escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe à calçada, cumprimenta-me com um menear de cabeça e entra no prédio à esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Brasília, quando tudo começava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista Lúcio Costa e os traços precisos e futuristas dos prédios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de Lúcio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Brasília tinha sido planejada por Niemeyer. Não, foi Lúcio Costa, disse eu. Niemeyer projetou – e bem – as edificações.
E Niemeyer, o poeta do traço arquitetônico, era aquele homem maduro que acabara de passar à minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almoçando no restaurante Alcazar, vizinho à minha mesa. Mas, havia uma timidez a não me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admiração por tudo o que vi dele aqui e em Israel.
Sábado passado, lá estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um prédio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o prédio está gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o número 1101. Um secretário atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o número que me dá e fale com D. Vera Lúcia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele está muito atarefado com a equipe e lamenta que não possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele não tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parabéns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2007.

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CAFÉ DO ANTÔNIO TORRES – Jornal O Estado

Olá, Antônio Torres, estou por aqui. Assim começou o telefonema com esse grande escritor brasileiro, autor de 11 romances, detentor, entre outros, do Prêmio Machado de Assis, maior glória concedida pela Academia Brasileira de Letras. Marcamos para andar juntos no dia seguinte. Na hora certa, desço e ele já está lá. Somos nordestinos. Ele, do Junco ou Alagoinhas, Bahia. Eu, desta Fortaleza de tantas faces. Entretanto, estamos ambos ainda aprendendo a ser cidadãos do mundo e a andar por aí afora. Atravessamos juntos a avenida vazia de carros e nos pusemos em marcha. Céleres senhores de tênis e calções em busca do sol dessa manhã escancarada. Na verdade, estou com um “short” de pijama, pois não encontrei o calção. Pergunto a ele se alguém vai desconfiar. Ele diz: nada, parece até calção mesmo. Fazemos uma curva e a praia além já é outra, sendo a mesma. O sol bate no mar e o reflexo nos encadeia um pouco. Ou seriam os corpos jovens semi-desnudos que passam ao lado, parecendo voar, mas não mudam a nossa prosa?
Estamos, acidentalmente, passando em revista a história de cada um, antes e depois do Plano Collor. Temos lembranças e lambanças a contar do que sofremos com o ‘cinquentinha’ que amanheceu disponível naquele dia aziago. E, a cada passo, vamos nos mostrando por inteiro, como devem fazer os amigos e digo da felicidade de tê-lo visto na capa de O Globo como emérito escritor que é, julgando os que almejam ser ou já o são.
Suados, cruzamos, sentido contrário, a avenida e lá vamos nos enfurnar, do jeito que estávamos, em uma livraria. Entramos em território dele. Um amor de Café que leva o seu nome. Com balcão, mesas e cadeiras decorados com esmero, uma carinhosa logomarca feita pelo Ziraldo e placa metálica registrando a data de sua abertura, no ano de 2003. Deixamos que partículas de H20 diminuam o desgaste das andanças quilométricas e ele, não contente apenas com o reencontro, mima-me com seu último livro de crônicas, “Sobre Pessoas”. Lisonjeado, começo a folheá-lo.
Vejo, alegre, ser o livro dedicado a umas poucas pessoas. Entre elas,
Carlos Augusto Viana, Laéria Fontenele e Sérgio Braga. Agora, já estamos tomando o café da manhã, repondo, com sobra, calorias perdidas. Conversamos até sobre Machado de Assis e Capistrano de Abreu, enquanto pães, queijo e sucos juntam-se à negritude do café que me energiza para tentar, sem êxito, falar com Sérgio Braga e Carlos Augusto. Finda o café, o sol, já zenital, nos remete de volta à praia e à água de coco, enquanto procuro os amigos citados. Por milagre, Carlos Augusto atende com voz de barítono matutino, trocamos prosa e repasso o celular para o Antônio Torres, sem esquecer de olhar o Drummond em bronze, sentado, que parece dizer: “Lutar com a palavra é a luta mais vã, no entanto, lutamos mal rompe a manhã”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2007.

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IRMÃ PETRONILLA – Diário do Nordeste

Nesta semana, vi uma homenagem sincera. Era uma celebração religiosa. Pessoas do povo, de todas as idades, de forma espontânea, se juntavam e cantavam louvores pela graça que tiveram da companhia por 18 anos de Petronilla Isonni. Seu coração, cansado, se finou há uma semana, com a paz dos que não deixam rastros de problemas, mas caminhos de luz e concórdia. Era noite e a Igreja da Vila União estava repleta de famílias e de centenas de crianças assistidas pelo Lar São Domingos Sávio. E lá estavam também os aquinhoados, no passado, com a assistência, educação e paciência de Petronillia Isonni, essa italiana destemida que largou família e amigos, vindo, sob o manto de irmã salesiana, fundar essa casa de formação de pessoas na Vila União, subúrbio de Fortaleza, ao tempo em que tudo era mais difícil.
Tijolo a tijolo edificou, com o pouco que recebia, uma casa simples, despojada, mas digna de ter a palavra lar em seu frontispício. E o fez sem recursos, com quase nenhuma ajuda de governos, sem medo dos assaltos que aconteciam nas redondezas, das caras feias de fiscais, mas com o coração e as mãos plenos de esperança. Os tijolos, reunidos, tinham o sentido futuro da transformação de crianças pobres que a tratavam como segunda mãe, embora fosse rigorosa na educação e modos.
E a casa, com o tempo, se fez jardim de ensinamentos e posturas de vida, rendendo frutos humanos. Nessa celebração era evidente o bem querer nos olhares atentos, leituras dos textos e orações coletivas, nos aplausos que mãos simples ofereciam como presente, a quem tanto lhes deu e agora tinha ido para sempre. Naquela Igreja sem ornamentos, vi, ao final, a singeleza da encenação e crença de crianças transformadas em anjos e querubins em auto de louvor que ‘mostravam a chegada ao céu’ da Irmã Petronilla, gente de bem. E não faltou a recepção de Maria, José e Jesus à nova moradora das paragens celestes. Eu, quase um cético inato, deixei que viesse à tona o residual que temos consolidado da fé cristã e constatei, alegre, que a simplicidade torna as pessoas mais próximas, verdadeiras, generosas e felizes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2007.

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HISTÓRIA LIVRE – Jornal O Estado

Era sábado à tarde. Dia de futebol, praia e bares, mas optei por ir à Escola Livre de História, coordenada pelo prof. Régis Lopes. Essa Escola, que tem dois meses de existência, procura, de forma diferenciada, fazer revisões críticas ou aprofundamento de obras e historiadores. Nesse sábado, seria discutida a obra de Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, nascido no Ceará, em 1853.
Como sou um aprendiz de Capistrano, embora não seja historiador, resolvi dar às caras no acontecimento. Cheguei, esbaforido, pois vinha de longe, mas a tempo de assistir a primeira palestra da tarde. Olhei e vi que jovens iam tomando assento e me quedei quase ao fundo da sala para ouvir. Ouvi uma jovem mestranda em História Social, Paula Virgínia Pinheiro Batista, falando com desenvoltura e carinho sobre o ofício do historiador na obra de Capistrano. Mais uma vez, dei-me conta da importância de Capistrano.
Oitenta anos após sua morte, estava sendo pesquisado, revisitado, com respeito e argúcia. Não só estava sendo apresentado, mas bem contextualizado de uma forma simples e didática. Com os olhos da memória revi a foto consagrada de Capistrano: rotundo, amarfanhado, míope e nada simpático. Mas sabia o seu ofício. E entendi, mais uma vez, que os valores da alma e do pensamento são os únicos permanentes. Não morrem com o tempo. Ouvi detalhes de suas cartas, tão bem tratadas por tantos, especialmente por José Honório Rodrigues e ali apresentadas em seus aspectos mais especiais. A palestra acabou e tive a curiosidade de saber um pouco mais, obtendo respostas lúcidas às minhas questões.
Depois, ouvi João Ernani Furtado Filho, doutor e professor universitário que conseguiu, de forma descontraída, com conhecimento e erudição, demonstrar que Capistrano tinha cumprido o seu papel de historiador, não só pela obra “Capítulos da História Colonial”, mas também por palestras, ensaios e as 1.500 cartas dirigidas a amigos e colegas. Ficava claro, mais uma vez, que a obra de Capistrano não se resumia a livros. A correspondência trocada com figuras como Pandiá Calogeras, Assis Brasil, Afonso de Taunay, Paulo Prado, João Lúcio de Azevedo e Guilherme Studart, entre outros, era rica, profunda, constituindo-se complemento importante de sua obra.
O sol já havia se posto quando o encontro terminou. Saí de lá alegre com aquela demonstração de amor à pesquisa, à História e, acima de tudo, ao Capistrano de Abreu, este cearense tão importante e não devidamente festejado. Recebi, de graça, mais uma lição, de que empáfia combina com disfarce e que o saber verdadeiro é simples, direto e sem lero lero.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2007.

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CONSCIÊNCIA RACIAL – Jornal O Estado

Nesta terça feira foi comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. Uma homenagem a todos os descendentes de africanos nascidos no Brasil e à Zumbi dos Palmares, chefe de um quilombo, morto em 20 de novembro de 1695, por não se submeter, mesmo tendo lhe sido prometida liberdade, ao jugo da Corte Portuguesa. Foi assassinado, decapitado e teve a cabeça exposta em praça pública para “acabar com o mito Zumbi”. Mais de três séculos se passaram e Zumbi está vivo na memória. Seus assassinos só são citados para dizer de sua morte. Ele representava a resistência à dominação, mas só em 1888, 183 anos depois, é que foi abolida a escravatura no Brasil.
Nesta mesma semana tomei conhecimento, através de Marcelo de Trói, do livro “Racismo e Solidariedade”, escrito por Carlos Moore, Mazza Edições, doutor pela Universidade de Paris. Esse livro pretende fazer algumas distinções básicas sobre o assunto no Brasil. Uma delas é a diferença entre racismo e preconceito. Trói. Para Moore: “racismo é algo que permeia toda a sociedade. As relações interpessoais são reflexos do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade”. Para ele, preconceito é qualquer coisa contra qualquer pessoa, seja ela de qualquer cor. O preconceito depende dos padrões de referência do preconceituoso. No entender dele, ser racista é “uma questão de querer exterminar o outro”. E ele diz que a mestiçagem – ou mistura de raças – foi uma imposição, após inundar o país de brancos para diminuir o percentual de negros existentes. Ele assegura que a mestiçagem é um fator dominante na sociedade. “Quando se está cantando todos os hinos à mestiçagem, é um hino à violência, ao estupro massivo de índias e das africanas”. Assim, segundo ele, “o mestiço surge nas sociedades violentadas e complexadas”.
Ele não acredita em um mundo “democraticamente racial”, pois aceitar a mestiçagem é dizer: “nós não conseguimos conviver com o negro como negro, temos que diluí-lo para aceitá-lo, temos que mudar o seu fenótipo”. “A ideologia da democracia racial é: “vamos aproximar o fenótipo do negro ao fenótipo ariano”. Ele propõe, ao contrário, o que chamou de “desracializar” ou tirar o fenótipo do lugar onde ele está. E diz até que “entre os negros se pratica essa maneira de eugenismo, de se casar com pessoas de pele mais clara, de escolher pessoas com cabelo mais liso…” .
Desracializar, enfim, seria destruir essa imagem normativa. Ele fala, temeroso, ainda que o ‘branco brasileiro normal’ esteja convencido de que vive no melhor país do mundo e que os negros estão contentes. E assevera: “tudo aqui está feito para que aconteça uma catástrofe. É por isso que felizmente uma parte dessa elite tem chegado a compreender que eles vão ter que mexer no sistema porque se não mexerem no sistema vão perder o país”.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/11/2007.

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LISBOA REVISITADA – Diário do Nordeste

Era 1965, outono, tal qual agora, e o sopro da aventura me fez chegar a Portugal. Tempo de Oliveira Salazar. Políticos e intelectuais se sentiam amordaçados pela PID, a polícia política. Eu era um fedelho no início dos vinte e tinha sede de conhecer o mundo. O velho, principalmente. Lisboa foi e será sempre a minha entrada – e saída- para tudo o que tenho visto por este lado da terra. Escorado no parapeito da varanda do Hotel Mundial, oásis de cordialidade na Baixa, vejo que estou ao pegado do Rossio, Chiado, Restauradores e da Praça do Comércio. E saio a esmo singrando praças, avenidas, ruas e vielas e dou conta de que os nomes das ruas (dos Sapateiros, da Prata, do Ouro) têm a ver com o que as pessoas fazem. É a tradição e história dessa cidade que sofreu brutal terremoto e foi reerguida, graças à lucidez urbanística do Marquês de Pombal, após 1755. Está linda, mesmo na pureza conspurcada pelo progresso.
E não fujo à tentação de chegar à Rua Garret e tomar mais uma foto com a estátua em que se transformou Fernando Pessoa, esse burocrata cumpridor de horários e a maior expressão poética portuguesa do século passado. No outro lado da rua, entro na Livraria Bertrand e vejo livros, inclusive o último, Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, consagrado no romance histórico Equador e filho de Sophia de Mello Brayner que, além de poeta, é nome de avião da TAP. E já estou na esplanada da Praça do Comércio, custodiado monumento arquitetônico que dá a sensação de amplitude, desde o arco que fecha – ou abre- a Rua Augusta.
É assim mesmo, sempre que dou os costados por aqui, me perco em fazer o que quero. Desta vez, tomo um táxi e sigo para a Expo, centro de eventos criados em 1998. Venho ver a “Arte Lisboa”, acontecimento que reúne expressões definitivas ou emergentes das artes plásticas portuguesas e me ponho a fotografar quadros, instalações e esculturas. E já estou levando publicações. Uma é minha. Outra, para amigo letrado e acostumado em pensar a arte como enlevo. E lembro Pessoa: “O comboio abranda, é o Caís de Sodré, chego a Lisboa, mas não a uma conclusão”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2007.

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O FRIO COM KAFKA – Jornal O Estado

Seis horas da tarde. Faz muito frio, quase zero grau e chove forte. Todas as luzes estão acesas em Praga e, mesmo assim, vejo cinza. É fim de outono com pinta de inverno brabo. Ando apressado e o sinal de trânsito fecha. Olho para as pessoas que vão, certamente, para as suas casas ou diversões e me sinto estranho na cidade em que estou por curiosidade e de passagem.
Deixo – que jeito – que a água ensope o meu casaco. Os óculos embaçados precisam ser limpos e o faço com o lenço. Os carros passam velozes e produzem barulho quando cruzam os trilhos dos bondes urbanos. Acabara, enfim, de ver a escultura com Franz Kafka, em uma pracinha pequena, triangular, ajardinada e meio escondida. Queria vê-la, andava e perguntava. Ensinaram-me e fui chapinhando na água que caia sem dó do céu nublado. Era um processo em andamento. E vi que o mais que uma cidade pode fazer por alguém é dar-lhe um nome a uma rua, erguer uma estátua e colocar informações nos guias turísticos. O que fica mesmo é a obra que deixa, o resto é vaidade, especialmente da família. E lembrei de toda a amargura e isolamento que Kafka sofreu e deixou passar em seus múltiplos livros. E ele estava lá sozinho e havia um grande vazio ovalado na escultura, como a registrar o que sentira. Só ele e eu na praça, ambos molhados. Ele não mais sentia o frio. Eu, sim. Uma metamorfose.
E volto a estar no sinal de trânsito que já vai abrindo e apresso o passo. No meio da multidão – que vem em sentido contrário – vejo uma jovem mãe com o seu rosto colado a uma filhinha que tirita de frio. E não só o rosto está colado, mas a mão a afaga pelas costas. Tudo não passou de segundos e essa imagem foi a mais forte que ficou na minha retina e pairou no meu sentir, mesmo que tenha encontrado Kafka, visto pontes, castelos, igrejas, restaurantes, assistido a concerto com peças de Smetana e Dvorak. Nada há mais forte que o aconchego espontâneo, o estar junto verdadeiro, a proteção que o carinho consegue transmitir e espanta o frio do corpo e da alma. E vi, repito, naquele instante que nada existe maior que o sentimento que nos une aos que amamos, sem perguntar se vão retribuir ou não o nosso bem querer. Kafka era só, não sentiu isso e sofreu por isso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/11/2007.

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QUEM SOMOS? – Diário do Nordeste

Nós somos seres complexos. Somos o que somos, o que temos e o que parecemos ser. O olhar do outro julga rápido, sem piedade. Mas quem somos nós? O ser que responde por nossos registros espaciais, raça, origem, categoria social e forma a base da educação, seja a familiar ou a forjada na vida por professores, trabalhos e colegas? Ou será o que temos? Sejam bens materiais ou as bagagens profissional, cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos nossos valores básicos? O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse.
O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Pessoas querem parecer o que não são e viver até com o que não têm. É o mundo da aparência, em que camisa ou vestido, por exemplo, são aceitos não por sua qualidade ou beleza, mas por ostentar marca de significação para a imagem de quem a usa. Um relógio deveria servir apenas para marcar horas, mas pode definir a posição social de quem ostenta um famoso. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é instável. E há os que usam cópias ou coisas falsas imaginando que possam parecer verdadeiras para os outros. Ora, o que isso vale, se quem usa sabe que é imitação?
A sociedade cobra os três. O ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízo de valor falso ou verdadeiro. É ainda aquilo que se acredita poder ser fabricado com “marketing pessoal”. O sair de casa, para ver ou ser visto. Alguns acreditam ser o que os outros pensam ou dizem deles. Esses, certamente, ficam à cata do que se chama de validação ou acreditar no que o outro diz. Não pesa, para o validado, a referência própria, o que a sua essência profunda diz, mas o soprado ou gritado em seu ouvido ou o escrito a seu respeito.
Esse questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar, a partir da própria consciência ou razão. Como dizem que Sócrates dizia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/11/2007.