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CONSCIÊNCIA RACIAL – Jornal O Estado

Nesta terça feira foi comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. Uma homenagem a todos os descendentes de africanos nascidos no Brasil e à Zumbi dos Palmares, chefe de um quilombo, morto em 20 de novembro de 1695, por não se submeter, mesmo tendo lhe sido prometida liberdade, ao jugo da Corte Portuguesa. Foi assassinado, decapitado e teve a cabeça exposta em praça pública para “acabar com o mito Zumbi”. Mais de três séculos se passaram e Zumbi está vivo na memória. Seus assassinos só são citados para dizer de sua morte. Ele representava a resistência à dominação, mas só em 1888, 183 anos depois, é que foi abolida a escravatura no Brasil.
Nesta mesma semana tomei conhecimento, através de Marcelo de Trói, do livro “Racismo e Solidariedade”, escrito por Carlos Moore, Mazza Edições, doutor pela Universidade de Paris. Esse livro pretende fazer algumas distinções básicas sobre o assunto no Brasil. Uma delas é a diferença entre racismo e preconceito. Trói. Para Moore: “racismo é algo que permeia toda a sociedade. As relações interpessoais são reflexos do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade”. Para ele, preconceito é qualquer coisa contra qualquer pessoa, seja ela de qualquer cor. O preconceito depende dos padrões de referência do preconceituoso. No entender dele, ser racista é “uma questão de querer exterminar o outro”. E ele diz que a mestiçagem – ou mistura de raças – foi uma imposição, após inundar o país de brancos para diminuir o percentual de negros existentes. Ele assegura que a mestiçagem é um fator dominante na sociedade. “Quando se está cantando todos os hinos à mestiçagem, é um hino à violência, ao estupro massivo de índias e das africanas”. Assim, segundo ele, “o mestiço surge nas sociedades violentadas e complexadas”.
Ele não acredita em um mundo “democraticamente racial”, pois aceitar a mestiçagem é dizer: “nós não conseguimos conviver com o negro como negro, temos que diluí-lo para aceitá-lo, temos que mudar o seu fenótipo”. “A ideologia da democracia racial é: “vamos aproximar o fenótipo do negro ao fenótipo ariano”. Ele propõe, ao contrário, o que chamou de “desracializar” ou tirar o fenótipo do lugar onde ele está. E diz até que “entre os negros se pratica essa maneira de eugenismo, de se casar com pessoas de pele mais clara, de escolher pessoas com cabelo mais liso…” .
Desracializar, enfim, seria destruir essa imagem normativa. Ele fala, temeroso, ainda que o ‘branco brasileiro normal’ esteja convencido de que vive no melhor país do mundo e que os negros estão contentes. E assevera: “tudo aqui está feito para que aconteça uma catástrofe. É por isso que felizmente uma parte dessa elite tem chegado a compreender que eles vão ter que mexer no sistema porque se não mexerem no sistema vão perder o país”.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/11/2007.

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HISTÓRIA LIVRE – Jornal O Estado

Era sábado à tarde. Dia de futebol, praia e bares, mas optei por ir à Escola Livre de História, coordenada pelo prof. Régis Lopes. Essa Escola, que tem dois meses de existência, procura, de forma diferenciada, fazer revisões críticas ou aprofundamento de obras e historiadores. Nesse sábado, seria discutida a obra de Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, nascido no Ceará, em 1853.
Como sou um aprendiz de Capistrano, embora não seja historiador, resolvi dar às caras no acontecimento. Cheguei, esbaforido, pois vinha de longe, mas a tempo de assistir a primeira palestra da tarde. Olhei e vi que jovens iam tomando assento e me quedei quase ao fundo da sala para ouvir. Ouvi uma jovem mestranda em História Social, Paula Virgínia Pinheiro Batista, falando com desenvoltura e carinho sobre o ofício do historiador na obra de Capistrano. Mais uma vez, dei-me conta da importância de Capistrano.
Oitenta anos após sua morte, estava sendo pesquisado, revisitado, com respeito e argúcia. Não só estava sendo apresentado, mas bem contextualizado de uma forma simples e didática. Com os olhos da memória revi a foto consagrada de Capistrano: rotundo, amarfanhado, míope e nada simpático. Mas sabia o seu ofício. E entendi, mais uma vez, que os valores da alma e do pensamento são os únicos permanentes. Não morrem com o tempo. Ouvi detalhes de suas cartas, tão bem tratadas por tantos, especialmente por José Honório Rodrigues e ali apresentadas em seus aspectos mais especiais. A palestra acabou e tive a curiosidade de saber um pouco mais, obtendo respostas lúcidas às minhas questões.
Depois, ouvi João Ernani Furtado Filho, doutor e professor universitário que conseguiu, de forma descontraída, com conhecimento e erudição, demonstrar que Capistrano tinha cumprido o seu papel de historiador, não só pela obra “Capítulos da História Colonial”, mas também por palestras, ensaios e as 1.500 cartas dirigidas a amigos e colegas. Ficava claro, mais uma vez, que a obra de Capistrano não se resumia a livros. A correspondência trocada com figuras como Pandiá Calogeras, Assis Brasil, Afonso de Taunay, Paulo Prado, João Lúcio de Azevedo e Guilherme Studart, entre outros, era rica, profunda, constituindo-se complemento importante de sua obra.
O sol já havia se posto quando o encontro terminou. Saí de lá alegre com aquela demonstração de amor à pesquisa, à História e, acima de tudo, ao Capistrano de Abreu, este cearense tão importante e não devidamente festejado. Recebi, de graça, mais uma lição, de que empáfia combina com disfarce e que o saber verdadeiro é simples, direto e sem lero lero.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2007.

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IRMÃ PETRONILLA – Diário do Nordeste

Nesta semana, vi uma homenagem sincera. Era uma celebração religiosa. Pessoas do povo, de todas as idades, de forma espontânea, se juntavam e cantavam louvores pela graça que tiveram da companhia por 18 anos de Petronilla Isonni. Seu coração, cansado, se finou há uma semana, com a paz dos que não deixam rastros de problemas, mas caminhos de luz e concórdia. Era noite e a Igreja da Vila União estava repleta de famílias e de centenas de crianças assistidas pelo Lar São Domingos Sávio. E lá estavam também os aquinhoados, no passado, com a assistência, educação e paciência de Petronillia Isonni, essa italiana destemida que largou família e amigos, vindo, sob o manto de irmã salesiana, fundar essa casa de formação de pessoas na Vila União, subúrbio de Fortaleza, ao tempo em que tudo era mais difícil.
Tijolo a tijolo edificou, com o pouco que recebia, uma casa simples, despojada, mas digna de ter a palavra lar em seu frontispício. E o fez sem recursos, com quase nenhuma ajuda de governos, sem medo dos assaltos que aconteciam nas redondezas, das caras feias de fiscais, mas com o coração e as mãos plenos de esperança. Os tijolos, reunidos, tinham o sentido futuro da transformação de crianças pobres que a tratavam como segunda mãe, embora fosse rigorosa na educação e modos.
E a casa, com o tempo, se fez jardim de ensinamentos e posturas de vida, rendendo frutos humanos. Nessa celebração era evidente o bem querer nos olhares atentos, leituras dos textos e orações coletivas, nos aplausos que mãos simples ofereciam como presente, a quem tanto lhes deu e agora tinha ido para sempre. Naquela Igreja sem ornamentos, vi, ao final, a singeleza da encenação e crença de crianças transformadas em anjos e querubins em auto de louvor que ‘mostravam a chegada ao céu’ da Irmã Petronilla, gente de bem. E não faltou a recepção de Maria, José e Jesus à nova moradora das paragens celestes. Eu, quase um cético inato, deixei que viesse à tona o residual que temos consolidado da fé cristã e constatei, alegre, que a simplicidade torna as pessoas mais próximas, verdadeiras, generosas e felizes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2007.

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CAFÉ DO ANTÔNIO TORRES – Jornal O Estado

Olá, Antônio Torres, estou por aqui. Assim começou o telefonema com esse grande escritor brasileiro, autor de 11 romances, detentor, entre outros, do Prêmio Machado de Assis, maior glória concedida pela Academia Brasileira de Letras. Marcamos para andar juntos no dia seguinte. Na hora certa, desço e ele já está lá. Somos nordestinos. Ele, do Junco ou Alagoinhas, Bahia. Eu, desta Fortaleza de tantas faces. Entretanto, estamos ambos ainda aprendendo a ser cidadãos do mundo e a andar por aí afora. Atravessamos juntos a avenida vazia de carros e nos pusemos em marcha. Céleres senhores de tênis e calções em busca do sol dessa manhã escancarada. Na verdade, estou com um “short” de pijama, pois não encontrei o calção. Pergunto a ele se alguém vai desconfiar. Ele diz: nada, parece até calção mesmo. Fazemos uma curva e a praia além já é outra, sendo a mesma. O sol bate no mar e o reflexo nos encadeia um pouco. Ou seriam os corpos jovens semi-desnudos que passam ao lado, parecendo voar, mas não mudam a nossa prosa?
Estamos, acidentalmente, passando em revista a história de cada um, antes e depois do Plano Collor. Temos lembranças e lambanças a contar do que sofremos com o ‘cinquentinha’ que amanheceu disponível naquele dia aziago. E, a cada passo, vamos nos mostrando por inteiro, como devem fazer os amigos e digo da felicidade de tê-lo visto na capa de O Globo como emérito escritor que é, julgando os que almejam ser ou já o são.
Suados, cruzamos, sentido contrário, a avenida e lá vamos nos enfurnar, do jeito que estávamos, em uma livraria. Entramos em território dele. Um amor de Café que leva o seu nome. Com balcão, mesas e cadeiras decorados com esmero, uma carinhosa logomarca feita pelo Ziraldo e placa metálica registrando a data de sua abertura, no ano de 2003. Deixamos que partículas de H20 diminuam o desgaste das andanças quilométricas e ele, não contente apenas com o reencontro, mima-me com seu último livro de crônicas, “Sobre Pessoas”. Lisonjeado, começo a folheá-lo.
Vejo, alegre, ser o livro dedicado a umas poucas pessoas. Entre elas,
Carlos Augusto Viana, Laéria Fontenele e Sérgio Braga. Agora, já estamos tomando o café da manhã, repondo, com sobra, calorias perdidas. Conversamos até sobre Machado de Assis e Capistrano de Abreu, enquanto pães, queijo e sucos juntam-se à negritude do café que me energiza para tentar, sem êxito, falar com Sérgio Braga e Carlos Augusto. Finda o café, o sol, já zenital, nos remete de volta à praia e à água de coco, enquanto procuro os amigos citados. Por milagre, Carlos Augusto atende com voz de barítono matutino, trocamos prosa e repasso o celular para o Antônio Torres, sem esquecer de olhar o Drummond em bronze, sentado, que parece dizer: “Lutar com a palavra é a luta mais vã, no entanto, lutamos mal rompe a manhã”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2007.

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O POETA DO TRAÇO – Diário do Nordeste

Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica. Manhã cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso vê-lo por inteiro. Baixo, calvo, calça escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe à calçada, cumprimenta-me com um menear de cabeça e entra no prédio à esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Brasília, quando tudo começava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista Lúcio Costa e os traços precisos e futuristas dos prédios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de Lúcio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Brasília tinha sido planejada por Niemeyer. Não, foi Lúcio Costa, disse eu. Niemeyer projetou – e bem – as edificações.
E Niemeyer, o poeta do traço arquitetônico, era aquele homem maduro que acabara de passar à minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almoçando no restaurante Alcazar, vizinho à minha mesa. Mas, havia uma timidez a não me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admiração por tudo o que vi dele aqui e em Israel.
Sábado passado, lá estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um prédio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o prédio está gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o número 1101. Um secretário atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o número que me dá e fale com D. Vera Lúcia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele está muito atarefado com a equipe e lamenta que não possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele não tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parabéns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2007.

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FELIZ LIVRO NOVO – Jornal O Estado

Este virar de ano nos acena com uma conspiração nova, a de retomar o gosto pela leitura. Uma espécie de ONG ‘Leia Mais’ e uma organização social ‘Fique Lendo e não seja assaltado’ estão propagando nomes de autores cearenses que poderão ser visitados em livrarias e de lá saírem com você para a sua casa. Eles vão mostrar a você todos os seus sonhos, desejos, indignações, amores e desditas. Eles se revelam no que escrevem. Seja em prosa ou verso. Você ficará íntimo deles,
Você passa, por exemplo, na livraria Livro Técnico e pergunta ao Sérgio Braga o que tem de bom na atual literatura cearense e, certamente, ele mostrará muitos títulos e autores. Depende do que você gosta de ler: poesia, crônica, conto, ensaio e romance. Há tanta pessoa iluminada nesta terra que você pode, por falta de informação, preconceito ou comodismo, estar perdendo momentos prazerosos de leitura.
O livro é um mundo pequeno ou grande, só depende do olhar de quem o lê e de sua história pessoal, pois há um entrelaçamento entre o que você lê e o que sente. Muitas vezes, tem perguntas e respostas que não sabemos ou ousamos formular. Você que lê jornal está a um passo dos livros. Ao terminar de ler este jornal, espreguice-se, olhe o lá fora e pergunte a si mesmo qual foi o último livro que leu. Não lembra? Ótimo, está na hora de voltar a ler. Vamos começar pelas mulheres. Não deixem de ler Ana Miranda, Ângela Gutiérrez, Beatriz Alcântara, Giselda Medeiros, Natércia Campos, Regine Limaverde, Tércia Montenegro e tantas outras.
Entre os homens, para falar só nos vivos, vou lembrando de Airton Monte, Alcides Pinto, Almir Gomes de Castro, Audifax Rios, Carlos Augusto Viana, Carlos Emílio, Barros Pinho, Batista de Lima, Dimas Macedo, Francisco Carvalho, José Teles, Juarez Leitão, Pedro Salgueiro, Luciano Maia, Lustosa da Costa, Rui Câmara e uma pá de outros valorosos escrevinhadores, todos servidores de leitores desconhecidos.
Acredite, ler não é perda de tempo, é entrar em sintonia fina com você mesmo, sem precisar de testemunha. Basta um livro, luz do sol ou da lâmpada e pernas jogadas sobre qualquer rede ou sofá velho. Ia esquecendo: eu, por exemplo, leio sempre e mais de um livro ao mesmo tempo, alternando a leitura. Gosto de ler com um lápis à mão, especialmente se tiver uma borracha acoplada. Com ele vou grifando, discordando ou anotando o que me parece certo, risível ou errado. Faça isso nesse ano novo. Essa é uma forma segura de alimentar a sua alma, essa que conhece todas as suas mazelas e glórias e, nas noites insones, diz em seu silêncio: vai dormir, deixe de frescura.
Na primeira nervura do ano alvoreça o seu espírito, esqueça os erros seus e os do mundo e vá de livro novo, esse companheiro silencioso, capaz e disponível, que está ali ao seu lado, todas as horas, para o que der e vier. Feliz 2008.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2007.

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2008 É 10 – Diário do Nordeste

Percebi que, somando todos os números do ano de 2008, se obtém 10. No sistema decimal, 10 é a nota máxima. Os jovens, ao se referirem a alguém que é bom, dizem ´você é 10! ´. Dessa forma, vamos todos crer que o novo ano que chega será o máximo ou, no mínimo, bom. Terá a força da cor vermelha a lembrar sangue, vida, energia e movimento. Dizem os que entendem – o que não é o meu caso – que números que somam 10 significam 1 em numerologia, pois nela o zero nada representa. Assim, poderíamos supor que será, igualmente, o primeiro, o 1 que se expressa pela criatividade, inteligência, argúcia, competência e independência. Essa divagação, pseudo-esotérica, é um alerta de que nós fazemos o ano, com a nossa vida, sangue, energia e movimento. Esses elementos se somam à nossa capacidade de trabalhar, inventar, criar algo de forma original e, acima de tudo, ser independente. Usar o seu sangue, energia e movimento significa que você não deve ficar aí parado. Novos rumos podem ser encontrados, sendo inventivo e livre. Desse modo, ao chegar o próximo dia 01, terça-feira, feriado, faça limpeza na bagunça de seus relacionamentos, papéis, roupas, entulhos mentais ou de sua casa e trabalho. Mantenha algo natural, vivo, ao seu lado, preferencialmente uma árvore, um vaso de plantas ou flores, e aceite que o meio ambiente é seu e sua preservação depende de você.
E, mais que isso, é necessário que você propague a ideia de que, se bem cuidado, ele melhorará a nossa vida com ar puro, oxigênio e coisas tais. Abra as janelas, mas cuide de saber se não há gente negativa ou ladrões por perto, deixe que o sol entre em todos os cantos, especialmente no seu lugar de dormir ou trabalhar, que deve estar asseado. Use roupa limpa, mesmo que velha. E não esqueça de ter fé e acreditar no que faz, sem essa de fingir ser isso quando é aquilo. Assuma-se, respeitando o seu corpo magro ou gordo, a idade que tem, sem pensar que o tempo não passa. Mas passará bem melhor se você souber usá-lo a seu favor, vivendo o hoje, pois o futuro sempre será o amanhã.

JOÃO SOARES NETO,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2007.

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2006 E NÓS

Estamos aqui. 2005 já era. Não vale mais falar dele, passou. É passado. Depois da preguiça, da missa, da premissa, entra na liça o 2006. Vem com tudo o que tem de direito: cpi, carnaval, copa do mundo, eleições, secas, enchentes, inverno e tudo o que os outros anos têm de pior e do bom. O que é óbvio não se diz, mas os anos são feitos por nós. Nós, as pessoas. E os nós que atamos ou deixamos que atem ao nosso redor. Se admitirmos que nós fazemos o ano, então é hora de cada um ir arrumando o jeito de fazer a sua parte, com arte, destarte. Se acreditarmos que estamos cheios de nós, os que nos enredam, prendem o nosso hoje e quiçá o futuro, é bom lembrar da história de Alexandre, o Grande, o líder guerreiro macedônio que conquistou a Ásia e deu sentido ao império helênico, sobre o tal do nó Górdio.
O rei, chefão, imperador da Górdia, por onde passaria Alexandre, em sua guerra de conquista criou um nó. Esse nó era um entrelaçamento de cordas e não havia ninguém que conseguisse desatá-lo. Era um nó cego, onde não se via forma de desatar o seu emaranhado. Até que um dia, conta a história, Alexandre resolveu aparecer por lá e foi tentar desatar o nó. Chegou com o seu jeito de conquistador decidido, passo firme e encarou o dito nó. Olhou, matutou, coçou a cabeça coroada, não via como resolver o problema e não podia sair de lá desmoralizado. Olhou para o chefão da Górdia e, sem avisar a ninguém, desembainhou a espada e cortou o nó ao meio. Estava resolvido o problema, de forma inusitada, e a fama de Alexandre foi aumentando.
Assim é na vida real. De vez em quando precisamos tirar a nossa espada imaginária e cortar os nós que atam as nossas vontades, atitudes e decisões. Imagine o que deve ter passado pela cabeça de Alexandre. Muitos já tinham tentado desatar o nó górdio e todos voltavam de cabeça baixa. Ele, não. Da mesma forma que os demais, não sabia o jeito de desmanchá-lo, pois não conseguia que as pontas penetrassem no novelo que se formara. Deu uma de doido. Partiu o nó com a espada e todo novelo se desfez. Dar uma de doido, temporário, pode não só desatar nós, mas liberar o que temos aprisionado por medo, acomodação ou indiferença.
Sem querer dar uma de Paulo Coelho e assemelhados, é bom que, de vez em quando, se faça algo inesperado, diferente do que esperam e que nos deixe livre de aporrinhações antigas. Começo de ano é tempo de amolar espada, verificar que a bainha está lubrificada e não vai impedir que, a qualquer dia ou hora, se ouse empunhá-la. O importante é não ficar segurando o cabo da arma, pois até a paz precisa ser conquistada pela audácia e surpreender os que se imaginam reis da Górdia.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/01/2006

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O OUTRO LADO DE MIM

Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros?
Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”.
Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor.
Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006.

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OS AVISOS DO CORPO

Estou escrevendo no computador e ouço um choro. É a minha secretária esvaindo-se em lágrimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E aí lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, não era hipertenso. Não era, mas será, certamente. Será, pela simples razão do corpo pedir respeito. Pede com jeito: não coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: não beba exagerado, veja seu fígado e as consequências para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, não respeita seus limites. O corpo pede: vá dormir, e ele fica madrugada afora, catando insônia.
Minha secretária continua chorando. O pai morava longe e lá se vai ela. Liga para a mãe e o choro fica mais controlado. Consola a mãe e diz: logo estará chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e não cuida, mas diz se preocupar quando a minha pressão ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secretária morrido de infarto, mas invento, para mim: ele só morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.
E aí lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e aí a pressão disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. Não é. Tem de se cuidar. Há centenas de lançamentos de autores vários, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e só ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem não quer nada, mandando e-mails, correspondência com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando uísque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele é assim.
Estou lembrando também de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagruélica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, você sofre. Lembro de tanta coisa, mas não esqueço das nossas vidas, responsáveis e, quiçá, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2006.